sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pride & Prejudice

Demorei muito tempo até me decidir a ver este filme. Primeiro porque nunca li nenhum livro da Jane Austin e na verdade conheço pouco da autora, depois porque achei que seria apenas mais uma história romântica daquelas que demonstram uma esterilidade e um vácuo que chegam a ser constrangedoras.
Acabei por ver o filme porque passava na televisão. E em boa hora não mudei de canal. Numa golpada que pouco tempo me deu para respirar, vi todo o filme sem pensar demasiado no que tinha visto. Quase sem dar por mim, o filme já tinha acabado… Que prazer temos quando vemos um filme e a realidade à nossa volta se apaga, e como que por momentos já não somos nós, mas somos aquelas pessoas e vivemos naquele sítio.
A história vale em si própria pelas personagens que nela entram e pelo seu realismo. Dado que o enredo se passa no século XIX, não é de estranhar que a mãe de cinco filhas – Mrs Bennet se dedique desesperadamente a arranjar-lhes um casamento, porque sabe que nenhuma delas herdará a casa onde vivem, que passará ao herdeiro masculino mais próximo, o primo Mr Collins. O filme não cede à tentação de colocar os nossos sentimentos modernos de hoje a comandar aquilo que era normal e aceitável por todos, mulheres incluídas. Daí que a personagem de Mrs Bennet, apesar de tremendamente irritante e inconveniente na maioria do tempo não seja totalmente desprovida de um certo humanismo, porque afinal tratava-se apenas de uma mãe a querer garantir o melhor para as filhas. Todas as personagens são de facto realistas, porque se encerra nelas uma grande parte de defeitos e qualidades tornando a história mais verosímil. Esse apogeu acontece na forma da personagem de Miss Elizabeth e Mr Darcy, dois jovens orgulhosos e tão certos de si próprios que se tornam de certa forma preconceituosos. Mas esse defeito é, ao mesmo tempo, a sua maior qualidade. A confiança que sentem dá-lhes chão para medrar uma personalidade que não se intimida, não cede e não se embaraça de si própria. O preconceito inerente às suas personalidades é o cunho da sua individualidade, da capacidade que têm de julgar construindo ideias claras daquilo que querem.
Um dos pontos altos do filme são os diálogos estabelecidos, principalmente entre Miss Elizabeth e Mr Darcy. A linguagem, completamente diferente da atual que é direta e objetiva, estava carregada de um formalismo, que obrigava os intervenientes a serem eloquentes. Este impedimento linguístico obriga a uma manobra subtil das palavras, que por não serem diretas se tornam mais expressivas. Desta forma, o filme consegue passar muitas das mensagens que nos chegam sobre as personagens de forma osmótica. Talvez o momento mais exemplificativo é a famosa cena da declaração de Mr Darcy durante a forte chuva que se abate sobre eles. O diálogo chega a ser ofensivo e rude, mas porque se rejeitam e se atacam com palavras polidas, o efeito induzido é muito maior.  Depois de rever o filme  – e sim foi mais do que uma vez – esta é sem dúvida a minha cena favorita. Está impecavelmente filmada, dando-nos a sensação intimista de sermos um espectador  presente e ambas as representações são tão boas que quase custa a acreditar que aquelas pessoas não existem de facto na realidade.
Como forma de ultrapassar também os impedimentos linguísticos, a linguagem corporal é muito bem explorada. Parte das intenções e ideias é expressa através dos olhos, dos passos, do preenchimento dos vazios entre as personagens e nas suas atitudes perante determinados eventos. Isto é o que mais aprecio, quando a história nos é contada através do desenvolvimento dos intervenientes, mais do que pelas palavras diretas e objetivas que nos chegam. Permite-nos um entendimento muito particular do que acontece e abre espaço à subjetividade da nossa própria visão dos acontecimentos.
Como nunca li o livro, não sei se a descrição cinematográfica de Lizzie e Mr Darcy é fiel. Li algumas críticas online argumentando que a ambas as personagens lhes falta uma grande dose de orgulho e preconceito, quando comparado ao original. A ideia que me ficou do filme é claramente oposta a esta. Outra das cenas que mais apreciei é a primeira resposta de Lizzie a Darcy, quando este lhe pergunta qual a melhor maneira de mostrar afeição a outra pessoa. Elizabeth, que convidara Mr Darcy para dançar e fora recusada e o ouvira mais tarde comentar que ela não teria beleza suficiente para o tentar e que era apenas um parceiro tolerável, responde-lhe “Dancing, even if you partner is barely tolerable”. Toda esta resposta transpira a sua vaidade e o seu amor-próprio extremo, que paradoxalmente acaba por confundir (e atrair) o Mr Darcy, que se vê numa posição que nunca tinha experimentado antes.
A personagem de Mr Darcy é de facto a mais interessante, no meu ponto de vista. Começa por nos causar estranheza e uma certa repulsa pelo seu estado taciturno de egocentrismo e o seu desprezo geral pelos outros. Mais tarde, a sua declaração a Lizzie é tão honesta como chocante. Quando a historia se desenrola porém, conseguimos entrar um pouco no seu mundo e na sua dificuldade em lidar com ele, o que o leva a uma sinceridade áspera extrema. Mais perto do fim, a sua vulnerabilidade é completamente exposta, por comparação com Elizabeth, que mantém o seu orgulho (e a sua dignidade!) até ao fim e demonstra uma força ímpar.  Lizzie é o verdadeiro símbolo do herói que não se dobra e que ganha naturalmente o respeito dos que a rodeiam, porque se respeita acima de tudo a si própria.
A ajudar a tudo isto, a fotografia do filme é deliciosa. Os tons pastéis das imagens pitorescas da Inglaterra rural, a paisagem rústica e natural é tão bem captada, que nos passa justamente aquela ideia bucólica mas sem delicadeza. A banda sonora também me cativou desde o primeiro momento, alternando entre excertos de piano sonhadores e momentos de orquestra mais agressivos, especialmente quando as personagens experimentam um ponto de consciência sem retorno.

Por fim, descobri também que nos Estados Unidos o filme contempla uma cena final entre Lizzie e Darcy já juntos. Aparentemente, o público americano não conseguia lidar com o fim em que eles se reconciliam mas em que existe a ausência de qualquer beijo. Na minha opinião é um erro, prefiro o fim que vi da primeira vez. Como alguém disse num texto que li de passagem, é justamente a ausência do beijo entre eles que torna todo o filme mais interessante. Quanto a mim, só tenho a dizer que … I Love, Love, ….Love this movie!


A famosa cena "da chuva" entre Darcy e Elizabeth:




Uma das trilhas sonoras do filme, o tema "Liz on top of the world":